Arquivo de janeiro, 2009

Publicado: janeiro 30, 2009 em Cultura

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A Autogestão da Sociedade Prepara-se na Autogestão das Lutas

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João Bernardo

Publicado na Piá Piou. Revista do coletivo Cactus. Coletivo de mulheres que atua autogestionariamente em educação. São Paulo, N° 3, Novembro de 2005.

 

Contrariamente ao que afirma a esmagadora maioria dos políticos e dos estudiosos da política, uma das principais características da sociedade capitalista é o fato de o Estado não se limitar às instituições que formalmente o compõem: governo, parlamento, policia e tribunais. No capitalismo o Estado, muito mais do que um conjunto de instituições, é o conjunto de princípios organizacionais que deve presidir a estrutura interna de todas as instituições, mesmo as que não lhe estejam diretamente ligadas. O Estado capitalista não é formado por algumas peças do jogo, mas sobretudo pelas regras do jogo. As escolas e as associações de bairro, para invocar dois tipos de instituição que interessam de perto ao Piá, inserem-se na ordem estatal sempre que estabelecem hierarquias internas entre os diretores que mandam e os empregados que obedecem, e sempre que perpetuam a mesma camada de dirigentes. Qualquer instituição que reproduza internamente este sistema não só se submete ao Estado capitalista como se integra nele.

Isto se sucede até com instituições que se apresentam formalmente como se fossem autônomas. O critério fundamental que devemos seguir para avaliar a autonomia é a forma de organização interna. Fala-se hoje muito de economia solidária, de empresas autogeridas, de projetos coletivos, de movimentos sociais, etc., mas será que ocorre nestes casos uma efetiva remodelação das relações sociais de trabalho ou será que continua a existir uma minoria de gestores que decide, e portanto explora, e uma maioria de trabalhadores que executa, e portanto é explorada? A remodelação das relações de trabalho implica a conversão das relações verticais de hierarquia em relações horizontais de solidariedade e de coletivismo, especialmente o direito de todos darem a sua opinião, a rotatividade nas funções e nas tarefas e a possibilidade de revogar em qualquer momento os mandatos dos representantes e das pessoas eleitas para cargos de coordenação.

 

Em qualquer luta importa mais a forma de organização dos participantes do que o conteúdo ideológico inicial. A tomada de consciência faz-se através da possibilidade que cada pessoa tiver de colaborar na condução prática da luta, sem se limitar a ouvir doutrinas ensinadas por outros. A aprendizagem ideológica só é criativa quando ajuda a conceitualizar experiências já adquiridas ou em vias de aquisição; e quanto mais profundamente vividas forem essas experiências tanto mais longe se pode levar a aprendizagem ideológica. É a luta o fundamento e o principal motor desta pedagogia, e a autonomia ou se aprende a partir de uma base prática ou não se aprende. Estes são critérios totalmente opostos aos do Estado capitalista.

Nas atuais circunstâncias, em que o capitalismo conseguiu desorganizar profundamente a classe trabalhadora, fragmentando os assalariados nas empresas e esforçando-se a todo custo por dispersar os velhos bairros populares, as lutas autonomistas parecem condenadas ao isolamento. É certo que esse isolamento pode ser combatido através da troca de experiências e do estabelecimento de redes de contatos mais ou menos duradouras, mas apesar disto o isolamento não deixa de ser grande. O notável marxista brasileiro Mario Pedrosa exclamou em A Opção Imperialista, uma obra publicada em 1966: “Onde a liberdade individual é subjugada? No setor mais importante da vida moderna, no local de trabalho, na oficina, na fábrica, na empresa. Como é possível reinar ai a autocracia e a liberdade em outras partes?” É este o cerne da questão. Não se podem implantar ilhas de autonomia total no meio de uma sociedade onde impera o autoritarismo, ou seja, onde a exploração se conjuga com a opressão.

 

Assim, na fase atual o importante é desencadear o começo de uma tendência. O máximo a que podemos aspirar para já é o desenvolvimento de lutas que tendam à autonomia, em que a participação de todos tenda a ser cada vez maior, em que a rotatividade nas funções tenda a ser crescente, em que o leque das remunerações – se for o caso para existirem – tenda a reduzir-se. Este “tenda a” não se consegue sem luta. Trata-se de uma luta dentro da luta, e só o processo permanente de luta interna pode garantir que as experiências de libertação não se convertam, como até agora tem sucedido, em novas experiências de opressão.

Enquanto as empresas não forem geridas pelos trabalhadores e não por patrões (de direita) nem por tecnocratas (de esquerda), enquanto a sociedade não for administrada pelos trabalhadores e não por políticos profissionais (de direita ou de esquerda), o capitalismo continuará a existir e, no máximo, mudará de forma, sem alterar o fato básico da exploração. Mas gerir as empresas e a sociedade é algo que se aprende de uma única maneira: gerindo as próprias lutas. Só assim os trabalhadores podem começar a emancipar-se de todo o tipo de especialistas e de burocratas. E com este objetivo não há experiências simples demais. Por mais modesta que seja uma experiência, os participantes vão se habituando a dirigir a sua atividade e vão aprendendo na prática aquilo que opõe essa solidariedade e esse coletivismo ao Estado capitalista. É esta a única maneira sólida como os trabalhadores podem, no plano prático, reforçar progressivamente a sua capacidade de organizar as empresas e a sociedade e, no plano ideológico, forjar uma consciência de classe.

 

Será esse um processo demasiado lento? Na história os processos não se definem nem por serem longos nem por serem breves mas por cobrirem um prazo necessário ou um prazo insuficiente, e o fator que aqui determina tudo é que sem a autogestão das lutas a autogestão da sociedade jamais será possível. Todavia, não se trata de projetar uma utopia num futuro longínquo. Pelo contrário, trata-se de afirmar uma presença imediata, porque qualquer experiência de autogestão constitui, por si só, uma ruptura com as regras do jogo do Estado capitalista. Ao mesmo tempo em que é a condição para generalizar a autogestão, o fato de gerir a própria luta é a demonstração da viabilidade prática das relações sociais anticapitalistas, igualitárias e coletivistas.

Sarau Do Trinca/ Palestina Livre!

Publicado: janeiro 22, 2009 em Uncategorized

Sarau do Trinca é uma iniciativa do Coletivo Trinca que procura, através da manifestação cultural, articular indivíduos e movimentos sociais em torno de eixos temáticos.
Nosso primeiro Sarau trará a questão palestina para o centro do palco. Para tanto, contaremos com palestra, leitura de poesia, apresentações musicais (com música regional palestina) e apresentações de videos.
O Sarau é gratuito. PARTICIPEM!

Sarau do Trinca/ PALESTINA LIVRE
dia: 14/02/2.009

Sarau do Trinca

Sarau do Trinca

horário: das 16:00 às 22:00hs
local: Rua Hamilton Silva Costa, 427, Mogilar. Mogi das Cruzes, São Paulo. (subsede da APEOESP Mogi, próximo à estação central de Mogi).

Coletivo Trinca

Publicado: janeiro 20, 2009 em Formação Política e Teoria

COLETIVO TRINCA

 

Somos um coletivo de engajamento nas lutas sociais, que fomenta a formação política, ação cultural e mídias alternativas, cuja união se dá pela necessidade de reconstruir, sem atrelamento a partidos políticos, governos, empresas ou cargos, a luta social. Este Coletivo se formou pela constituição de uma rede de solidariedade entre estudantes, bancários, professores, artistas, etc., e se consolida como uma alternativa de organização autônoma dos trabalhadores.

 

Nossos Princípios:

 

I – Classismo – Como a Sociedade está dividida em exploradores e explorados, significa que nós, trabalhadores (mulheres, negros, gays, imigrantes, camponeses, desempregados, estudantes, e demais minorias), nos reconhecemos em nossa condição comum de explorados e lutamos contra todas as formas de exploração e opressão e por conseqüência pela superação do capitalismo. Objetivamos uma sociedade onde todos nós controlemos diretamente as nossas condições de vida – nossa própria atividade e os meios de produção. Desejamos reforçar nossa identidade enquanto classe trabalhadora, afirmando, assim, nosso direito à plenitude da vida e não mera sobrevivência, satisfazendo todas as nossas necessidades contra a ditadura de economia.

 

II – Solidariedade de Classe – Sendo a fragmentação dos trabalhadores a maior arma de dominação social, deve ser combatida, por meio de circulação de informações, troca de experiências, apoio mútuo entre lutas, estabelecimento de contato entre trabalhadores de diversos setores; superando as divisões corporativistas, salariais, regionalistas, culturais, étnicas, de gêneros, religiosas, etc.; permitindo a unificação prática das lutas para a transformação social, a partir de bases de acordo mínimas, superando os sectarismos.

 

III – Horizontalidade e Democracia Direta – A horizontalidade é a construção de relações coletivistas, solidárias e igualitárias, antagônicas a qualquer forma de hierarquia. Isso significa que todos os militantes devem ter acesso a todas a informações e tomar parte nas discussões e decisões do grupo. Busca-se o nivelamento da participação e o engajamento de todos. Para isso temos como instrumento a democracia direta, na qual assumimos critérios coletivos de delegação de tarefas e funções que permitam o controle sobre quem as exerce, acabando com a separação entre os que decidem e os que fazem, através, sempre que possível, da decisão por consenso, que exige diálogo entre tod@s. Quando esta não for possível, recorreremos à votação por maioria simples, registrando a posição da minoria para posterior avaliação.

 

IV – Autonomia e independência de classe – Lutamos pela auto-organização dos trabalhadores com independência de classe em relação a governos, empresas, patrões, partidos políticos, religiões, burocracias sindicais, etc. Isso implica ter auto-determinação, utilizando como prática a auto-gestão. Do mesmo modo, a questão da independência de classe pressupõe o apartidarismo.

A revolução por dentro das palavras


José Mário Branco

publicado no Jornal Português Mudar de Vida
Já nos aconteceu a todos partilharmos as mesmas ideias com amigos nossos e, no entanto, não haver entendimento entre nós acerca das palavras que usamos para definir e designar essas ideias. Isto deve preocupar-nos, porque “a falar é que a gente se entende”.

Em tempos, um amigo meu, que era revolucionário e comunista, foi destacado para desenvolver a organizar a luta política numa região (Trás-os-Montes) onde, pensava-se, as pessoas estavam muito dominadas pelas ideias reaccionárias dos padres e dos caciques ex-fascistas. Ele foi para a região e, numa tasca de aldeia, pôs-se à conversa com trabalhadores do campo que ali estavam a beber e a conviver. Evitou usar palavras como socialismo, comunismo ou revolução que, pensava ele, podiam despertar a desconfiança ou a rejeição. Foi conversando sobre a vida “em geral” e lentamente, à medida que iam estando de acordo sobre as ideias simples (da democracia, da liberdade, da justiça social para acabar com diferenças entre pobres e ricos), ele ia explicando “os nomes dos bois”: isto é o socialismo, aquilo é o comunismo, aqueloutro é a revolução, etc.

No fim dessa conversa “cuidadosa”, um velhote virou-se para ele, e disse: “Essas coisas que nos explica são importantes; eu concordo com elas, concordo que a nossa sociedade devia ser assim… Mas há uma coisa que não entendo… Porque é que, a coisas tão bonitas, você dá nomes tão feios?” Para ele, os “nomes feios” eram as palavras “socialismo”, “comunismo”, “revolução”.

O que os separava não eram as ideias, as convicções, as aspirações para a sociedade, mas sim os “nomes feios dados a coisas bonitas”.

Os activistas têm de tentar resolver este problema de comunicação. Mas, infelizmente, explicar as coisas verbalmente não é suficiente. As palavras acima referidas, que para mim correspondem ao interesse profundo das classes proletárias, foram (e continuam a ser) muito deturpadas de duas maneiras: primeiro, pela propaganda dos senhores do sistema, que não querem que haja essas mudanças na sociedade e, segundo, pelos erros e os crimes que foram sendo cometidos em nome dessas ideias.

A luta contra a propaganda do sistema é inevitável, faz parte da luta de classes, e só se pode combater com um contínuo trabalho de esclarecimento e educação política: libertar o espírito crítico das pessoas encontrando palavras comuns para as ideias comuns. A segunda dificuldade depende, no essencial, de sermos capazes de provar aos outros, na prática, que os nossos actos e os nossos métodos de actuação estão de acordo com os grandes princípios que defendemos.

No fundo, os activistas da revolução não conseguem resultados palpáveis (para transformar a sociedade) sem irem fazendo, no seu íntimo pessoal, aquela revolução a que aspiram para os outros. Porque as palavras não são mais do que uma representação do mundo, material ou subjectivo. A acção (o que fazemos, como o fazemos) é que pode realmente transformar a realidade. O pensamento permite-nos compreender (tentar compreender) a realidade e traçar caminhos para intervir nela. E o discurso, sendo essencial para comunicar com os outros, é o resultado dessas duas coisas: acção e pensamento.

A luta pela democracia tem de ser uma escola de democracia; a luta pelo socialismo tem de ser uma escola de socialismo; a luta pelo comunismo tem de ser uma escola de comunismo; e a luta pela transformação revolucionária da sociedade tem de ser, em si mesma, uma espécie de antecipação dessa sociedade nova por que lutamos.

Enquanto houver, em muitos de nós, contradições visíveis entre estes três aspectos – acção, pensamento e discurso – as pessoas, com toda a razão, desconfiarão das nossas palavras e não se juntarão a nós para mudar a vida.

A Trinca

Publicado: janeiro 20, 2009 em Cultura
Tudo que é sólido desmancha no ar

Eu sou erva daninha
Planta que brota das rachaduras
Gerando mais rachaduras
E destruindo todo o concreto
Que até ontem parecia invencível
Sou a semente do devir
Que esteve soterrada sob a calçada
Contenho em mim a árvore
Sou e não sou semente ao mesmo tempo
Pois já sou planta, sou flor, sou fruto
Sou a floresta que há de brotar amanhã
Em todas as rachaduras

De teu concreto, sobrará poeira
De teu asfalto, o pedrisco
De tuas pedras, os pedaços
De tua suposta eternidade, a impermanência
De teu império, a ruína