Arquivo de março, 2009

Carta aos trabalhadores:

Algumas verdades que precisam ser ditas

A atual crise econômica mundial, consequência da ação cega das empresas e da lógica irracional e destrutiva do capital, já atinge fortemente a classe assalariada e estudantes brasileiros, mas, há um verdadeiro pacto de silêncio entre a elite capitalista, que detém os meios de produção e de manipulação da informação, e seus fieis escudeiros, governantes de plantão, no sentido de esconder as verdadeiras informações e nos manter “anestesiados”, condicionados a não ver os efeitos perversos da crise que já castiga a todos nós trabalhadores. São demissões em massa que já estão ocorrendo no Brasil, a redução de jornada de trabalho com redução de salários em muitas empresas, o risco iminente da retirada de direitos trabalhistas, a sangria de dinheiro público cedido às empresas sob a falsa justificativa de salvá-las da falência, o aumento da exploração e violência contra os trabalhadores. Tudo isso significa passar para nós o prejuízo da crise que o sistema capitalista criou, para que o Capital continue se alimentando do suor e sangue da classe assalariada.

Governos municipais, estaduais e federal omitem a verdade ao afirmar que o Brasil está blindado contra a crise que assola o mundo. O movimento sindical, na maioria controlado ainda pela CUT, e os partidos políticos, ajudam os governos e empresas a desarmar o trabalhador, aceitando as regras desse jogo de mentiras, omissões e traições contra nós trabalhadores. O dia da mentira não é apenas o 1º de Abril, mas todos os dias, quando ligamos a televisão ou lemos jornais e revistas, e ouvimos as declarações dos administradores do sistema, as quais os burocratas sindicais e partidários compactuam ao não desmistificar e denunciar. Qualquer um que ande pela rua percebe que a crise se manifesta em todos os lugares, e ela mal começou ainda.

A verdade que precisa ser dita aos assalariados e à juventude é essa: mesmo os partidos políticos e a grande maioria dos sindicatos que hoje promovem atos públicos supostamente em defesa de nós trabalhadores, acabam jogando esse mesmo jogo, na medida em que querem apenas chegar ao poder para continuar administrando a crise desse mesmo sistema, como ocorreu com o PT. Eles não querem combater a exploração e romper com este sistema, mas apenas “geri-lo” e se tornarem patrões-burocratas, obtendo ascensão social e cargos com privilégios. Assim, se tornam os “bombeiros do capitalismo” e assinam embaixo da política cruel de administração de crise, repressão sobre os trabalhadores e espremer os seres humanos em nome de salvar a economia e a produção de mercadorias. Os muitos militantes de base honestos, que marcham sob a bandeira dessas organizações, conduzidos pelos burocratas de plantão, deveriam agora abrir os olhos para isso e assumir uma posição crítica e racional, não se deixando ser massa de manobra desse jogo.

A proposta do Coletivo Libertário Trinca aos trabalhadores é que se unam contra os patrões e empresas, contra assumir o ônus da crise, com independência e autonomia em relação a todos os partidos políticos e contra o modelo de estrutura sindical burocrática existente e comecem a se organizar de forma independente, a partir dos seus bairros e locais de trabalho, visando a luta para resistir contra esse sistema, que quanto mais se desenvolve, mais monstruoso e destruidor se torna, ameaçando a existência da humanidade e nos conduzindo para a barbárie.

Trabalhadores de todo o mundo: unamo-nos contra os aproveitadores dos pobres!

Pela autonomia da classe trabalhadora!

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Libertem Cesare Battisti!

Publicado: março 31, 2009 em Lutas Sociais

Moção

Nós, integrantes do Coletivo Libertário Trinca, expressamos nossa
solidariedade ao escritor italiano Cesare Batisti, bem como nosso total repúdio à postura das autoridades italianas que o vem perseguindo e ao processo calunioso e difamatório organizado pelos meios de comunicação, a fim de criminalizar e macular a figura do literato por meio de uma construção equivocada da história da Itália, apresentada como um país inteiramente democrático e apagando-se os últimos anos da década de 70 (os “Anos de Chumbo”), momento histórico marcado pela radicalização da
luta de classes e pela ação enérgica da situação que acossou implacavelmente os militantes de esquerda.

Na Itália, o fascismo não se extinguiu, apenas se “travestiu” de legitimidade de fachada democrática, fatos que os historiadores não poderão sonegar.
Por isso, quem considera esses fatores conclui que Batisti não cometera os crimes dos quais o acusam, sendo, agora, acossado e condenado num processo duvidoso, com delações premiadas e regido por uma justiça cuja imparcialidade é altamente questionável. Assim sendo, fica ainda mais evidente que o escritor não é nenhum criminoso, mas um dissidente político, sua perseguição configura-se como um ato marcadamente político, representando simbolicamente a criminalização dos
movimentos sociais e da geração de 68.
Sendo o Brasil um país que reivindica a democracia e no qual vigora uma
lei de Anistia (para todos os segmentos envolvidos nas lutas desencadeadas no período conhecido como “Ditadura Militar”), seria uma profunda incoerência aprovar a extradição de Batisti, por se tratar de um
perseguido político. Esta constatação garante o seu imediato asilo político,
previsto na Constituição Brasileira (no Artigo 4º, parágrafo X).
O governo italiano, ainda, demonstra profundo desrespeito à soberania do
Brasil, quando exige a extradição imediata de Batisti, fato oportuno que não
aconteceu outrora, quando a França concedera asilo político a ele e a uma série de refugiados italianos.
Caracteriza-se, dessa forma, a verdadeira intenção do governo italiano: calar esta voz que tem denunciado, por meio de seus livros, as arbitrariedades de um período histórico cercado de injustiças, cujos “ecos” ainda ressoam. Battisti é usado como um “bode expiatório” num momento em que a crise da sociedade produtora de mercadorias demonstra os seus limites e consequências nefastas.
Desta maneira, reivindicamos do governo Brasileiro a não-extradição de Cesare Batisti e a garantia de seu refúgio político em nosso país.
Batisti não é um criminoso, mas um escritor, ativista político e intelectual,
injustamente acossado por defender suas posições pela transformação
social e emancipação da classe trabalhadora.

Libertem Cesare Battisti!

Assinam essa Moção:

Coletivo Libertário Trinca

 

Mais informações sobre Cesare Battisti:

http://criticaradical.org/cesare.htm

http://cesarelivre.org/

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/03/443426.shtml

http://picasaweb.google.com/criticaradicale

Seguem artigos extraídos de Passa Palavra:

http://passapalavra.info/?tag=cesare-battisti

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Do caso das Jaulas

Publicado: março 30, 2009 em Lutas Sociais

Do caso das jaulas

29 de Março de 2009  

Publicado em Passa Palavra

Em uma escola de Mogi das Cruzes, São Paulo, a luta conjunta de professores, alunos e comunidade consegue derrubar uma grade de ferro que era imposta pela diretoria do estabelecimento. Por Professor Anônimo.

 

 

prisao-escola[NR: este artigo foi escrito por um professor atuante em lutas sociais, envolvido no caso. Trata da luta dos professores, alunos e comunidade da Escola Estadual Dr. Washington Luís (a maior escola de Mogi das Cruzes – SP) contra as grades de ferro implantadas na escola. A luta foi vitoriosa, levando o estado a determinar que as grades fossem arrancadas, e abriu um debate público amplo na região, sobre o papel da escola pública e as políticas de encarceramento de estudantes. Esta escola, na qual lecionou o saudoso professor Maurício Tragtenberg por dois anos (na década de 70), foi palco de décadas de políticas repressoras, perseguições, delações de professores e alunos (durante o regime militar). Recentemente despontou um movimento social, sindical e estudantil mais forte, modificando esta feição. Os envolvidos na luta pedem a publicação anônima, devido à “Lei da Mordaça”, e a sofrer represálias. Segue o artigo. Passa Palavra.

Do caso das Jaulas

7b5f62f606-a55a-4e37-ac00-5f808bcd7e7e7d_escola_gradesAcontece que, numa cidade não muito distante da Capital do estado de São Paulo, alunos e professores, ao retornarem do período de recesso [férias], foram surpreendidos com a instalação de mais grades de ferro no interior de sua Unidade Escolar. Sob pretexto de isolar alunos de determinadas áreas do prédio (inclusive a biblioteca), os componentes da Diretoria executaram “na calada da noite” (sem a aprovação prévia do Conselho de Escola, composto por pais, alunos, professores e funcionários) esta veloz ação.

Uma certa repugnância encarcerou-se no lugar. Decerto, os tão “ilustres” idealizadores do projeto não esperavam este tipo de sentimento e a reação que estava por vir. Os pioneiros foram os professores, que protocolaram na secretaria da escola um abaixo-assinado (com sessenta assinaturas) solicitando a extração imediata das barreiras. Logo, esta vergonha chegou à mídia local.

Infelizmente, em virtude da “Lei da Mordaça” (proibição de que umescola-prisao-2 funcionário público critique a administração na imprensa, podendo ser processado e exonerado) que vigora nos setores públicos do estado de São Paulo, somado ao medo de possíveis represálias, vários educadores se manifestaram anonimamente em um jornal de grande circulação da cidade, que, por sua vez, decidiu comprar a briga [entrar na disputa]. Em exatos oito dias, os já citados componentes da Diretoria (e alguns funcionários e professores favoráveis a tais implementos arquitetônicos), por intermédio da imprensa escrita, fizeram um curso intensivo de Pedagogia e Humanidade. Além disso, dado o espectro do evento, alunos, Corpo de Bombeiros, Conselho Tutelar, Conselho Municipal de Educação (constituído por vereadores), pais de alunos da comunidade escolar, ex-estudantes e pensadores educacionais da região salientaram o despropósito de tal atitude, questionando os verdadeiros motivos que levaram o corpo administrativo a deslocar verbas públicas para fixação, sem laudo [parecer] técnico, daqueles dispositivos, sendo que essas verbas poderiam ser mais bem utilizadas, por exemplo, na melhoria das decadentes quadras de esporte [espaços para desporto] da instituição.

O “motim” tomou dimensões colossais. Os integrantes do sindicato dos professores (APEOESP) foram à escola mas foram impedidos de entrar pela diretora. A Delegada de Ensino da região não sabia da infeliz “novidade” e rapidamente restringiu-se ao silêncio. O jornal elencou as [apresentou a lista das] outras escolas estaduais do município que também utilizavam tão horrendos aparatos carcerários. Enfim, o estado anunciou oficialmente, através de seus órgãos superiores e “competentes”, a retirada das grades, abafando imediatamente o caso (antes que se propagasse). Seria inadmissível divulgar aos quatro ventos que a dinâmica da exclusão se reproduz em ambientes destinados à propagação do saber e à manutenção de valores tão dignos, como o da democracia. A paz voltou a reinar. No entanto, instaladas comodamente nos espíritos de alguns e soltas por outras “escolas perdidas”, as grades ainda perduram, encarcerando, com suas temíveis barras de ferro, os olhares insuspeitos de crianças e jovens, desde sempre incompreendidos.

Por Vários abaixo-assinados
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Carta de solidariedade ao militante político, poeta e escritor Cesare Battisti.

Manifestamos a nossa solidariedade ao militante político, poeta e escritor CESARE BATTISTI, preso pela Polícia Federal em 18 de março do ano em curso no Rio de Janeiro.

A sua prisão fere todos os preceitos jurídicos que norteiam o espírito de Estado democrático de direito e os ideais dos direitos fundamentais e humanos, elementos constitutivos da preservação da vida e da dignidade humana. (mais…)

18 de Fevereiro de 2009

É urgente, antes de se proceder a um julgamento apressado, estudar os fatos. Cesare Battisti de fato é um perseguido político, e este artigo conta sua história, que os meios de comunicação fazem questão de esconder.

Essa é a primeira parte (de quatro) do artigo sobre o escritor italiano e refugiado político Cesare Battisti. Aqui apresentamos os anos 70 na Itália até o início da sua fuga.Introdução

cesarebattisti2-300x2251“Cesare Battisti é um perseguido político?”. Essa simples pergunta é objeto de debate inesgotável entre diferentes atores: o governo italiano, o governo francês (com Mitterrand e posteriormente com Sarkozy), o governo brasileiro e os comitês de solidariedade (no Brasil e França), entre outros. Essa discordância tem em seu cerne a análise ou o ponto de vista destes sobre os movimentos dos anos 70 na Itália e o seu desenrolar que perdura até hoje, uma vez que não houve processo de anistia. Para o governo italiano, aquelas pessoas que se uniram em manifestações, nas ocupações das universidades, nas organizações e mobilizações feministas, e se recusaram a se alinhar a um ou outro pólo de poder constituídos da época, isto é, a burocracia do Partido Comunista Italiano (PCI) e a democracia capitalista, não passaram de subversivos e, no caso dos grupos armados, de terroristas. Essa categoria — de profundo conteúdo ideológico — permitiu que a Justiça italiana criminalizasse em massa os movimentos e lutas sociais. Aos dissidentes restou aceitar a história reescrita pelo governo, o que lhes garantia o status de “arrependido” e uma pena reduzida.
Battisti jamais foi um “arrependido”, não só no significado jurídico que carrega o termo, como também na dimensão política, pois, apesar da renúncia às armas, ele nunca deixou de dizer o que ocorreu durante os anos 70 na Itália, isto é, a partir da perspectiva de quem estava na dissidência e não no poder, a qual questionou as estruturas e posições do poder, abrindo espaço à imaginação de formas mais justas e igualitárias de sociedade. É por essa razão que a Itália está disposta a calá-lo. Primeiro Chirac (em 2004), o qual o pagamento foi o consórcio do trem em troca da Doutrina Mitterrand que garantia abrigo a diversos italianos envolvidos nos movimentos dos anos 70. E, agora, a intensa pressão ao governo brasileiro para se “reavaliar” o caso Battisti. (mais…)