Arquivo de março, 2010

Os professores da rede pública de ensino do Estado de São Paulo estão em greve desde o dia 8 de março, devido à precarização das nossas condições de trabalho, promovida por projetos de lei que retiram direitos nossos, instituem provas para classificação e de mérito, além da estagnação dos salários, situação que diminui o poder de compra do professorado. Enquanto o preço de tudo sobe, o nosso salário permanece o mesmo – ou seja, ele está sendo reduzido paulatinamente via inflação. Numa tentativa de camuflar isso, o atual governo criou um bônus que se baseia em metas de acordo com o desempenho dos alunos nas escolas, mais uma forma de nos iludir e nos fazer trabalhar mais sem receber aumento algum.

É mais barato para o governo-patrão pagar gratificações para alguns do que aumentar o salário de todos nós. Sem falar na desmobilização e desunião que essa gratificação gerará entre nós. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo ameaçou não pagar os professores que teriam direito ao bônus, caso decidam aderir ao movimento grevista e a ameaça se estende aos dias parados de todos os que aderirem à greve. O direito de greve, garantido no artigo 9º de nossa Constituição, está sendo enterrado pelo governo Serra, através dessas sanções econômicas aos que optarem por exercer este direito constitucional.

Para nos iludir e desunir ainda mais, o governo Serra inventou a avaliação por mérito. Agora o aumento de salário será condicionado ao desempenho nessa avaliação. Detalhe: apenas 20% da categoria receberá esse aumento. Caso metade dos professores atinja um desempenho merecedor de aumento, apenas 20% da categoria será contemplada com o aumento salarial. Isto é justo? Mais uma forma do governo Serra economizar recursos, pois aumentando o salário de, no máximo 20% dos professores, o governo diminui seus gastos consideravelmente, e o pior é que esta verba economizada, dificilmente será usada na melhoria de nossas escolas públicas. Tal sistema gerará uma deterioração das relações profissionais e uma sobrecarga violenta de mais trabalho. Também desunirá mais ainda a nós professores, instaurando um clima negativo de competição nos locais de trabalho, e favorecendo também a pressão profissional e o assédio moral. Precisamos dizer NÃO à lógica de fábrica que estamos sendo submetidos!

O atual governo, não contente em iludir a nós, trabalhadores da educação, ilude também a opinião pública com propaganda enganosa, diariamente, na televisão. A publicidade do governo mostra escolas em perfeito estado de conservação, com salas de informática abertas aos finais de semana, dois professores em sala de aula, entre outras mentiras. A realidade que encontramos nas escolas é outra: sala de informática com uso restrito, inclusive durante o período de aulas; seguimos dando aula em salas superlotadas com cerca de 40, 50 ou mais alunos por sala. Com aulas em período noturno tendo 45 minutos, o professor tem pouco mais de 1 minuto para cada aluno em uma sala com 40 estudantes. Não precisamos ser especialistas para chegarmos à conclusão de que quanto mais alunos por sala, pior fica a qualidade do ensino e maior nosso stress e doenças de trabalho.

Não bastassem as mentiras nas propagandas do governo, os grandes meios de comunicação seguem publicando notícias mentirosas relacionadas à greve. Matérias dizem que a mobilização teve cerca de 1% de adesão da categoria e outras mostram o governador José Serra dando “graças”, por a greve não ter tido grande adesão. Como na maioria dos movimentos grevistas, a grande mídia sempre fica do lado do governo, veiculando informações para desmotivar os membros da categoria desinformados e ainda forma a opinião pública contra os grevistas.

Mas na sexta-feira 12/03 foi realizada uma manifestação com cerca de 40 mil professores (a grande mídia noticiou 5 mil) na Avenida Paulista em São Paulo, onde os professores decidiram em assembléia continuar em greve por tempo indeterminado. Também foi decidida a realização de “pedágios” nas principais avenidas das cidades, ou atos em praças públicas, panfletagem com carro de som, etc. Isso depende de cada subsede da Apeoesp. Tivemos outro ato no dia 19/03 com mais de 50 mil pessoas, e mesmo com a mídia omitindo a verdade, todos ficamos estupefatos com a truculência da polícia no dia 26/03 no Palácio dos Bandeirantes.


Vamos parar de apenas reclamar! Tomemos o sindicato de volta em nossas mãos!

Não bastassem os ataques de Serra/PSDB e do Governo Federal/PT e toda a cambada de tecnocratas dos dois governos contra nós (que apenas disputam poder entre si para nos explorar, sendo na essência iguais), ainda temos uma imensa dificuldade de mobilização, e com razão muitos professores criticam o sindicato. Mas de nada adianta criticar sem tomar atitudes práticas que mudem essa realidade.
Resumidamente, nos últimos dez anos, o governo teve êxito em dividir e esmigalhar em pedaços a nossa categoria, desunindo a nós professores. Isso gerou uma passividade forte e enfraqueceu as lutas. A consciência de nossa categoria regrediu, e muitos de nós caíram numa apatia, individualismo, e mesmo em posições pouco progressistas, conservadoras. Muitos procuram saídas individuais apenas, ou se iludem com o mito de que somos “classe média”, porque consumimos tudo através de endividamento.
Como nossa categoria se apassivou, o sindicato ficou esvaziado e passou a ser controlado por burocratas “profissionais da luta”, que fazem do sindicalismo uma profissão, meio de vida, e trampolim para politicagem eleitoreira. E isso acontece justamente pela ausência de nós professores organizados a controlar e impulsionar o sindicato, o que dá espaço para o surgimento de “profissionais da luta”, sindicalistas de escritório. Claro que um sindicato e toda greve, são de fato políticos – trabalhar, viver, se relacionar com as pessoas e com a comunidade são atos políticos, tudo é política – mas devem ser políticos no sentido de defender os interesses coletivos da classe, e não de grupos específicos que fazem pseudo-política com intenção de ascender socialmente, dançando de acordo com a música do poder.
Não adianta nos conformarmos, balançar os ombros e sairmos do sindicato desiludidos – mesmo porque com a instituição do imposto sindical, mesmo não sendo afiliados, nosso dinheiro irá para a instituição do mesmo jeito: uma parte de nosso salário! O que devemos fazer, portanto, é nos unirmos nas escolas, debater com nossos colegas de trabalho, nos mobilizarmos, fazendo o sindicato se movimentar, e tomando o controle de volta sobre ele, já que esse dinheiro descontado deve ser nosso e servir para a nossa luta por melhores condições de trabalho e salários, e não ser meio de vida de burocratas profissionais e pelegos, que fazem negociatas com o governo pelas nossas costas, a portas fechadas.
Em muitas subsedes, como Suzano, Mogi, Guarulhos, Santos, etc, existem agrupamentos de professores de Oposição combativos e sérios que contestam essa situação e lutam pela transformação de nosso sindicato. Mas sem o respaldo das bases e escolas, ficam isolados e até sofrem represálias. É bastante óbvio que os burocratas petistas da direção estadual do sindicato querem se apropriar de nosso movimento para finalidades eleitorais de disputa de poder com o PSDB – quem não percebe isso? Mas isso ocorre só porque nós professores deixamos, ao nos omitirmos e não assumirmos a frente da luta, ocupando o espaço do sindicato e participando dele ativamente. A pelegada sindical da direção estadual da APEOESP (Articulação Sindical petista) quer agora arbitrariamente reduzir a pauta de reivindicações a apenas salário, contrariando tudo que foi decidido em assembléias. Vamos permitir isso?
Colegas professores: o que vamos esperar? Nosso salário ser comido pelo aumento dos preços? Ficarmos doentes por tensão e excesso de trabalho? Sermos agredidos nas escolas? Sofrermos mais humilhação e assédio moral? Termos de acumular empregos, ficando doentes, apáticos e vendo nossas relações pessoais se deteriorarem? Sermos ainda mais explorados?
Por isso, nossa proposta é essa: vamos nos organizar, discutir nas nossas escolas, participar das assembléias e reuniões regionais, e fazer o sindicato se mobilizar em favor da categoria e encostar nosso patrão e os burocratas sindicais na parede, mostrando nossa força, dignidade, coleguismo, solidariedade e amor à profissão. Um bom começo seria mobilizarmos, discutirmos e nos organizarmos nas nossas escolas, e depois, formando comitês ou grupos de mobilização independentes, de professores, se possível com participação da comunidade escolar: funcionários, pais, alunos, associações de moradores, etc. Participar das reuniões sindicais e REs também é importante, mesmo a quem não seja afiliado. Sempre temos que lembrar: Quem não governa a si mesmo, acaba sendo governado e pisado pelos outros…

Coletivo Libertário Trinca – Por um Movimento classista pela Educação Popular